OPINIÃO: "A Prainha da Discórdia do Uisses" - na crônica de Eduardo Siqueira

04/01/2022


foto - Redes Sociais

 

Olha, não sabemos o que aconteceu, mas parece que o bom-senso fugiu da Prefeitura. A proposta megalomaníaca da construção de uma prainha em Maringá pode ser parte de uma grande jogada de marketing, uma tática agressiva pra aumentar a arrecadação de impostos, um canudo pra sugar mais dinheiro dos moradores e turistas das cidades vizinhas e do restante do Brasil, quiçá do mundo. Pode ser muita coisa. Na melhor das hipóteses, visa oferecer uma opção de lazer gratuita aos mais pobres, que não têm condições financeiras de frequentar um clube. Ótimo, tomara que seja só isso. De qualquer forma, será que é de uma prainha artificial que os maringaenses pobres mais precisam? Foi discutido com os vereadores, debatido com a comunidade, divulgado pela imprensa? O Plano Plurianual dos próximos quatros anos acabou de ser aprovado na Câmara, por que ninguém falou do tal Parque das Águas? Vai ver que passou despercebido de novo, apesar de toda a transparência da Prefeitura.

Durante as andanças pela cidade, em atividades diversas, ouvimos tudo quanto é tipo de reclamação, há décadas: fila da habitação, fila da creche, fila da saúde, fila da assistência, fila da arborização, transporte coletivo caro e precário, mil dificuldades pra receber cestas básicas e outros auxílios vitais, dificuldades pra cumprir os requisitos das vagas de emprego, pra cumprir as exigências da burocracia de forma geral. Postos de saúde, unidades de pronto-atendimento, escolas e creches municipais carecem de manutenção, reformas e reparos dos mais básicos. Centros esportivos com piscinas vazias, azulejos corroídos, quadras destruídas, alambrados enferrujados, mato alto, falta de segurança. As poças d’água em prédios públicos, nos dias de chuva, poderiam muito bem servir à ideia da prainha. E não venham dizer que a reforma de uma dúzia de prédios, entre quase três centenas de próprios públicos, vai resolver tudo.

Temos consciência de que o Poder Público é incapaz de atender todas as demandas de seus cidadãos, muitas delas são psicológicas, existenciais, pois vivemos numa sociedade em que a competição e o lucro privado sempre gritam mais alto, nos deixam doentes. No entanto, quando se fala em construção de prainha, enquanto maringaenses estão na pobreza ou na miséria, passando fome (sem eufemismos), ficamos sem saber se é sério ou só uma piada solta no meio de alguma festa.

 

Afinal, é comum entre os governantes de Maringá essas ideias espetaculares, astronômicas, futuristas, principalmente depois que viajam muito pra fora do Brasil ou veem alguma coisa legal no Dicionário Maringaense. Querem a fama de visionários, brilhar nos livros de história. Talvez fosse mais produtivo, honesto, se visitassem com maior frequência as regiões vulneráveis do município, ouvissem as dezenas de milhares de famílias e pessoas inscritas no Cadastro Único, beneficiárias dos programas sociais, atendidas pelos CRAS, CREAS, entidades, voluntários e voluntárias espalhados por aí, pra saberem o que essas famílias precisam de verdade. E se não enxergarem os problemas, cheguem mais perto, usem lupa. Consultem a Câmara, a cidade toda então. Isso sim seria democrático, e não voluntarismo empurrado goela abaixo.

Maringá é, sem dúvida, uma ótima cidade pra se viver, acima da média, repleta de qualidades e belezas naturais, de trabalhadoras e trabalhadores exemplares que vieram de todo o país erguer o município sob o jugo de gente rica e esperta. E pode ser ainda melhor com a participação crítica da sociedade. Sejamos francos: em comparação com a péssima qualidade de vida e estrutura da maioria dos municípios brasileiros, Maringá é um oásis. Mas não é por isso que vamos varrer os problemas pra debaixo do tapete de rankings suspeitos, de obras grandiosas ou empurrá-los para as cidades vizinhas, encontrar soluções mirabolantes pra problemas fictícios. Não dá pra digerir passivamente um gasto frívolo como esse, num período de crises profundas como o atual. Depois vão dizer que falta dinheiro pro essencial, pra coisas vitais, urgentes, enquanto parte da população se alimenta de parques bonitos e procura abrigo nas lindas praças. Em tempos de bonança, com debate amplo, sério, fora da internet, quem sabe?! Adaptem os lagos dos parques, liberem a cachoeira do Bosque 2, há boas opções até.

Esporte e lazer são essenciais, sem dúvida, então mostrem que a Prefeitura se preocupa de verdade, cuidem dos centros esportivos, das ATIs e espaços de lazer que já existem, muitos deles caindo aos pedaços, aliás. Construam novos espaços na periferia, atendam à parcela menos favorecida da população. Não disfarcem problemas graves e antigos da cidade com paisagismo, obras midiáticas, notícias sensacionalistas. As diversas filas dos serviços públicos estão aí pra testemunhar o que estou dizendo. Conhecemos algumas respostas: as soluções estão em estudo, em andamento, entra prefeito, sai prefeito. Sempre tem dinheiro em caixa para o fundamental e o secundário, somos privilegiados.

Esse texto, claro, é só uma provocação, mais uma brincadeira entre tantas outras, num país em que quase nada é levado a sério. Reconheço o trabalho da Prefeitura em diversas áreas, já passei horas defendendo iniciativas louváveis. Hoje é possível, por exemplo, que uma opinião seja lida e considerada, como poucas vezes acontecia na cidade fora dos gabinetes das instituições ou das paredes da Acim. Opinem, sugiram, critiquem, incomodem, camaradas! Vamos tirar os políticos da zona de conforto. Maringá já é boa, pode ser excelente com nossa participação. 

Ps: tentem encontrar o Parque das Águas no Plano Plurianual de 2022 a 2025. Não consegui, não devo ter procurado direito.

 

(*) Eduardo Siqueira: graduado em Letras e especializado em História pela Universidade Estadual de Maringá. Já atuou como servidor da Prefeitura de Maringá, conselheiro municipal de Assistência Social e dirigente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Maringá (Sismmar). Atualmente, trabalha na Câmara Municipal e integra a direção do PCdoB de Maringá.

 

 


Periódico Registrado em 04/09/2018 no Cartório de Registro de Títulos e Documentos e no Registro Civil de Pessoas Jurídicas de Maringá.
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